Garimpar sempre um novo fato referente a um determinado tema tem sido o
princípio básico desta página dedicada à divulgação da história, causos, lendas
e pessoas de Pindamonhangaba ou relacionadas a este município. Dentro deste
conceito, a Revolução de 1932 já foi assunto abordado em diversas edições, como
a série "Memórias da Revolução - Diário do combatente Mário Amadei", publi-cada
em 24 capítulos no ano de 2009. Semelhante à mencionada série, também ficam
registradas na Tribuna, algumas cartas escritas na Revolução Constitucionalista.
Escritas nas trincheiras, lá onde os pau-listas enfrentaram os irmãos em nome de
uma constituição para o Brasil. Seu autor, embora não tenha sido
pindamonhanga-bense, era de Botucatu, teve um relação histórica com
Pindamo-nhangaba, foi um dos formandos da turma de 1920 da Escola de Farmácia e
Odontologia. Sua filha, a professora Sylvia Galvão, moradora nesta cidade,
faleceu faz alguns anos, em um acidente automobilístico ocorrido na capital
paulista quando, utilizando-se do transporte gratuito da Prefeitura de Pinda,
se dirigia a uma unidade hospitalar para atendimento médico.
Infelizmente nosso material não é quantitativo nem tem qualidade. São cópias
xeroca-das, quase apagadas, de apenas oito cartas enviadas pelo doutor (também
era advogado), professor e poeta Sylvio Galvão, a sua esposa a qual ele tratava
simplesmente de Maria...
As cartas na realidade eram cartões distribuídos à tropa . Identificados pela
patriótica frase "Tudo por um São Paulo forte no Brasil Unido" e a denominação
Correio Militar M.M.D.C, traziam ilustrações nas quais se destacavam as
bandeiras paulista e brasileira e o combatente constitucionalista, com espaço
para o nome do batalhão e do soldado. O local destinado à escrita ficava entre
duas frases; acima, um estímulo: "O entusiasmo das tropas apressa a vitória";
abaixo, no final desse espaço, um pedido: "Pais, mães, irmãos, amigos escrevei
aos vossos soldados queridos despertando-lhes o entusiasmo".
Da correspondência de Sylvio Galvão a sua amada, tivemos acesso a oito
mensagens enviadas do front, as quais transcrevemos a seguir, numa sequência
baseada nas datas em que foram escritas:
Correspondência de Sylvio Galvão à sua amada
Fazenda Retiro, 24 de julho de 1932
Maria...
Que saudade bravia! A quietude das trincheiras pelo 'front', como dizem,
dá-nos a ilusão de que a luta terminou. Soube agora mesmo que me enviaste o
dinheiro pedido. Obrigado
Sylvio
Fazenda Boa Vista, 21 de agosto de 1932
Maria...
Escrevo-te da trincheira. A minha escrivaninha é o fundo de um prato. Lindo
lugar onde estamos. Verdadeiramente lindo. A esquerda, a cavalaria escura dos
picos da Mantiqueira, a menos de um quilômetro à frente. Atrás, e à direita da
casa da fazenda, a cerca de 200 metros, um panorama surpreendente... é um lençol
amarrotado de morros em plano inferior, cambiado do azul escuro ao verde,
vermelho, amarelo... Lá adiante, o cruzeiro, à noite, visto daqui, é uma jóia
constituída de diamantes. Pouco adiante de nós, está Atibaia, invisível daqui.
Dos homens que vieram comigo, poucos ainda me acompanham. O nosso batalhão é
extraordinário de resistência. Existem destacamentos dele por toda a parte desta
região. Muitos dos prisioneiros nestes últimos dias foram feios por nossa gente.
No domingo passado assistimos um belo combate de aviões sobre o morro onde
estávamos: dois contra dois.
A saudade por aqui "urra na caixa do peito". E o frio! Cruzes! Chuva todos os
dias! Adeus , abraços do Sylvio
PS. Lulu está aqui e vai bem
Fazenda Retiro, 23 de agosto de 1932
Maria...
Não se impressione com a falta de notícias. Quando elas faltam é porque tudo
vai bem. No momento em que escrevo, por exasperação, não se ouve um só tiro, nem
longe nem perto. Telegrafei há dias, pedindo-lhe mandasse 100$ooo, mas parece
que você não recebeu o telegrama. Perdi a carteira com 90$000.
Adeus, abraços do Sylvio
Pinheiros, 26 de agosto de 1932
Maria...
Tenho uma vontade doida de conversar com você pelo telefone, mas... talvez só
possa ir a Cruzeiro amanhã. As mulheres paulistas têm sido admiráveis em
dedicação; mas falta ainda uma coisa: é empurrar para as trincheiras muita gente
fardada que se exibe pelas cidades. É fácil conhecer os verdadeiros servidores
da nossa causa. Eles têm três diferenças infalíveis: barba, sujeira e
carrapatos. Soldado bonito nunca deu tiro.
Adeus. Abraços do Sylvio.
Trincheira da Matta, 29 de agosto de 1932
Maria...
Suas cartas têm-me chegado com 15 a 20 dias de atraso. Ainda hoje recebi um
bilhete postal datado de 15 do corrente. Às duas horas você deve estar em
Botucatu, se é que não resolveu aproveitar mais a oportunidade do passeio. Eu
continuo aqui. Já me sinto cansado. A sujeira também cansa. Aqui não há
novidades. Neste momento, aviões nossos lançam cerca de trinta bombas sobre o
inimigo. Entre a nossa gente e a das trincheiras da frente há troca de
"amabilidades" de fuzil e de boca.
Adeus. Abraços do Sylvio
Trincheiras do Piaguy, 27 de setembro de 1932
Maria...
Quisera celebrar meu aniversário em casa, mas não é possível, pelo que vejo.
Celebro-o aqui mesmo. O inimigo está "camarada". Ante ontem os nossos foram
esfogueteá-lo nas suas trincheiras!. Aqui, somos onze "valientes" sendo a
maioria de estudantes.
Adeus. Abraços do Sylvio
Trincheira do Piaguy, 28 de setembro de 1932
Maria...
Trinta e quatro anos hoje. Não podendo celebrar a data com vocês, celebro-o
com a minha família daqui, onde estão o Luís, o Serrador, o Paulo Moreira
Barbosa, o (nome ilegível na cópia da carta), o Jordano, o (ilegível) e outros.
O Liacca e o Serafim chegaram hoje. Recebi a carta que este trouxe e o dinheiro.
Estou bem de finanças.
Obrigado e adeus. Abraços do Sylvio
Trincheiras do Piaguy, 29 de setembro de 1932
Maria...
Nada de novo na frente do Paraíba.... É só o que lhe posso contar a respeito
do que se passa. Tenho um palpite de que estamos no fim. E Deus permita que
assim seja, pois já não aguento mais de saudades. Meu coração festeja esta
possibilidade meio tola
Adeus. Abraços do Sylvio.
O Correio Militar M.M.D.C
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| Capa do livro com as instruções do Correio Militar e um aviso ao combatente |
A denominação provém da sigla adotada em Homenagem aos mártires precursores
do movimento, assassinados e em 23 de maio de 1932: Martins, Miragaia, Dráuzio e
Camargo. A sede deste serviço postal criado na Revolução de 1932 era na capital
paulista, com diversas agências espalhadas pelo interior e também no estado do
Mato Grosso. Normalmente as agências funcionavam em salas simples, instaladas
na Casa do Soldado.
Conforme definição encontrada no prefácio do O livro de Instruções do
Correio MMDC assim define em seu prefácio o objetivo deste serviço: tem por
escopo facilitar o envio de notícias aos soldados que se batem nas linhas de
fogo e estabelecer o intercâmbio das cartas, pequenos volumes e valores, entre
eles e seus familiares. É um traço de união permanente entre a cidade. Entre os
bravos no Norte e do Sul; do Leste e do Oeste."
Era um serviço bem organizado. No final de setembro de 1932 cerca de 2.500
cartas era expedidas e recebidas diariamente. Em alguns locais ocorria o
intercâmbio com os Correios e Telégrafos, órgão federal, tudo à semelhança de um
correio convencional.
(Fonte www.abrafite.com/correio.htm, Associação Brasileira de Filatelia
Temática, artigo de Geraldo Ribeiro Jr.)
Nossos leitores
Já a leitora, professora e advogada, Maria Julieta Goffi Sandim, também
entrou em contato conosco para revelar igual satisfação com a matéria
publicada nas edições de 22/1 e 29/1/2010, quando nosso tema foi A Sociedade
Italiana Margherita de Savoia. Seu avô, João Baptista Goffi, foi o primeiro
secretário da referida entidade beneficente que se dedicava a trabalhar em favor
da população menos favorecida da Pinda de antigamente.
Beatriz Cunha Perez, a dona Bia, sobrinha-neta de Athayde Marcondes, autor
da obra imprescindível obra sobre Pindamonhangaba, entrou em contato conosco
via email. Dona Bia, que hoje vive um pouco na capital paulista e outro pouco na
capital carioca, está solicitando um exemplar da edição de 22/12/2009, cujo tema
foi “Pindamonhangabense é reconhecida como única autora de "Parabéns a você",
referindo-se à vitória da família da pindamonhangabense autora da letra do
Parabéns a você, Bertha Celeste Homem de Mello, com relação a direitos autorais.
Esta leitora, nossa colaboradora assídua, também está solicitando um número da
segunda edição da revista Documenta, publicada pelo Museu Histórico e Pedagógico
D. Pedro I e Dona Leopoldina. Vamos providenciar com o Paulo Tarcizio e o
professor Jurandyr.