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| O encerramento das oficinas de teatro está marcado para o final do mês de março (28), com o tema “Voz” | Os alunos fizeram um trabalho sobre a “máscara neura” |
A oficina de teatro oferecida pela Prefeitura nos dias 6 e 7 no teatro Cootepi foi encerrada com um exercício entre os participantes: todos encenaram um mito indígena utilizando as máscaras neutras, uma linguagem específica e muito usada por inúmeros grupos e companhias teatrais. Esta foi a terceira oficina com a atriz, diretora, professora, crítica teatral e pesquisadora Juliana Calligaris.
Em "Desmascaramento do Ator pela via da Máscara Neutra", Juliana teve por objetivo despojar o ator de vícios cênicos, oferecendo instrumentos para uma compreensão da própria "corporeidade e fisicalidade", individual e coletivamente.
Os frequentadores tiveram aula prática e teórica, aprenderam técnicas de máscara, fizeram exercícios de preparação à arte da representação, trabalho de corpo e de movimento, olhar, gesto, entre outros elementos, que serviram para enriquecer o conhecimento de cada um, enquanto "feitor" da arte.
"A gente fez um exercício cênico em cima do trabalho da máscara neutra, que tem uma linguagem muito específica no teatro. A máscara neutra não serve para esconder, ela revela. O exercício é baseado em um mito indígena brasileiro", conta Juliana.
Raptada pelo Raio
A história encenada pelos participantes chama-se "Raptada pelo Raio". Seu contexto é uma lenda indígena segundo a qual existia na tribo do povo Marubo um cacique bravo e corajoso. Ele tinha uma esposa chamada Maia. Num determinado dia, ele saiu para caçar e trazer alimento para sua tribo, e Maia ficou sozinha na oca principal. O povo Raio descobriu que ela estava sozinha, e o Rei Raio, que já era apaixonado por Maia, fechou a tempestade e atingiu a Maia, carbonizando o seu corpo físico e levando o espírito para o mundo do Raio. Quando o Cacique voltou e viu que Maia tinha sido raptada, ficou furioso e resolveu buscar Maia no povo Raio. Para isso chama o pajé da tribo, que lhe dá uma fumaça para cheirar e um chá: à medida que foi cheirando, o Cacique foi ficando cada vez mais etéreo e menos denso, até seu corpo espiritual descolar-se do corpo físico. O Cacique então diz para que não queimem o corpo de Maia prometendo trazê-la de volta.
No céu encontra o povo Nuvem, Gafanhoto, Faca, Mentira e Violência, mas todos, um a um, alegam não saber o paradeiro de Maia. Até que chega a vez de perguntar ao povo Mentira, e este lhe informa que Maia está com o Rei Raio e que estão com raiva dele por ter atacado a tribo. O povo Mentira se une ao cacique, chama os outros povos, e todos juntos atacam o povo Raio; há uma tremenda batalha no céu e muita gente morre. O cacique consegue entrar no palácio Raio, e lá vê Maia muito debilitada porque havia sido ferida pelo Raio, então fica sendo metade humana e metade Raio. O cacique tenta trazê-la de volta, mas Maia havia se apaixonado pelo Raio e gerado dois filhos com ele. O cacique volta para a terra e vê o corpo de Maia pegando fogo; diz então para o povo: eu não disse para não queimá-la? O povo explica que o corpo de Maia estava cheirando mal, e assim é encerrada a história.
Envolvimento dos participantes
Juliana conta que o en-volvimento dos participantes foi total e que percebeu neles um nível participação, de compreensão e de percepção bem diferente, com relação ao trabalho desenvolvido na formação dos artistas de Pindamo-nhangaba. "Estou sentindo um nível de entrega bem mais profundo que está saindo de uma compreensão mais cotidiana, indo para uma compreensão mais profunda à cerca da arte. Já é a terceira oficina, as pessoas estão vindo com uma mente mais preparada para o trabalho. A expectativa para a quarta oficina é aprender mesmo a colocar a palavra na boca do ator".
A pesquisadora revela que a formação do ator brasileiro peca muito quanto à voz, e a voz não é muito trabalhada, porque as pessoas já têm tantas dificuldades de fazer teatro, que acabam trabalhando só o corpo, que é imediato, e se esquecem da intenção e da força da palavra em cena.
"Tenho uma expectativa muito boa de que eles compreendam o que é uma intenção de cena, e não um texto decorado, o que é a intenção real de cena, porque não precisa falar muito para falar tudo", finaliza Juliana.
Laila Gama, arte-educadora e atriz, afirma que as oficinas ministradas por Juliana acrescentam conhecimento por colocarem os alunos em contato com novas linguagens. "Ela é uma excelente profissional. Que venha mais vezes para Pinda, estou ansiosa pela quarta oficina".
O ator Paulo Adriano dos Santos comenta que a oficina de máscara o ajudou muito, pois o próximo trabalho do grupo de que faz parte irá utilizar máscaras, e as técnicas transmitidas devem ajudar bastante. Ele participa das oficinas de teatro oferecidas pela Prefeitura tendo Juliana como professora desde a primeira edição: "ela é uma excelente profissional, e a cidade ganha com a capacitação de artistas do município, diz Paulo Adriano.