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CULTURA E LAZER
Frei Galvão, natural de Pindamonhangaba?

Concluindo o assunto da semana passada, publicamos, na íntegra, artigo do  professor Jurandyr  Ferraz de  Campos, historiador com várias obras publicadas e paleógrafo coordenador do Arquivo Municipal Dr. Waldomiro Benedito de Abreu ( instalado no prédio do Museu D. Pedro I e Dona Leopoldina)
Professor Jurandyr

Esta pergunta nos era formulada por inúmeros cidadãos de Pindamonhangaba, em  2007, quando da visita do Papa Bento XVI ao Brasil para a canonização de Santo Frei Galvão.

Apesar de a maioria dos pesquisadores apontarem Santo Frei Galvão (Antônio de Sant'Anna Galvão), como tendo nascido em Guaratinguetá, no Vale do Paraíba paulista, a verdade é que não existe uma certeza histórica sobre esse fato.

Aqueles que defendem a terra de nascimento do querido Santo como sendo Guaratin-guetá, invocam em seu favor o fato de ter sido ele batizado naquela cidade. Ocorre que isso, até o momento, não pode ser comprovado, pois o Livro de Registro de Batismos, onde estaria o assento referente ao seu nascimento, encontra-se extraviado há muito tempo.

Carlos Eugênio Marcondes de Moura em seu livro "Os Galvão de França no povoamento de Santo Antônio de Guaratinguetá (1773 - 1972), editado em 1972, informa que se "perdeu infelizmente o livro de batismos da Matriz de Guaratinguetá, relativo ao período em que nasceu o Frei Galvão e por hora temos de nos contentar com esta informação."

A informação a que se refere o ilustre historiador é a de que  Frei Galvão teria nascido por volta de 1739, conforme se pode inferir do inventário de sua mãe, D. Isabel Leite de Barros. Pois bem, este é o único dado concreto de  que se dispõe, até o presente.

Todavia, muitos entendem, como aliás, Marcondes de Moura na obra acima citada, que o próprio Frei Galvão teria declarado a sua terra de nascimento, ao depor perante a Câmara Eclesiástica de São Paulo, em 10 de janeiro de 1758, em favor de seu irmão José Galvão de França. Esse depoimento se deu porque seu irmão pretendia contrair matrimônio, e necessitava  justificar que o seu estado era livre, mas para não ocorrer em impedimento. O registro reza que "Antônio Galvão de França, natural da Vila de Guaratin-guetá de idade que disse ser de dezenove anos testemunha a quem o dito muito reverendo Senhor deferio o juramento dos Santos Evangelhos (...)." (Autos de justificação de Estado Livre a favor de José Galvão de França ACMSP, Est. 4, Gav. 67. Lº 458, Apud MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de, op. cit.).

Basta ler atentamente, o início este documento, para observar que não é o jovem Antônio quem afirma ser “natural da Vila de Guaratinguetá", e sim, o escrivão que fez o registro. Sendo assim, poderia ser apenas uma referência ao local de origem do depoente, principalmente porque se sabe que lá ele sempre vivera, e não precisamente, que ele fosse nascido naquela vila. O importante é que, sendo assim, esse documento que poderia esclarecer qual a sua terra natal, deixa de ser conclusivo, ou seja, no atual estado das pesquisas em documentos, não se pode afirmar, peremptoriamente, ter Santo Frei Galvão nascido em Guaratinguetá.

Admitida a hipótese de que Frei  Galvão não nasceu em Guaratinguetá, onde, então, poderia ter nascido?

Ao abordar esta questão, abrimos o estudo das raízes pindamonhangabenses da família do querido santo. Deve ficar claro, no entanto, que não nos move nenhuma preocupação em levantar algum tipo de polêmica sobre este assunto, por menor que possa ser, antes, é nosso objetivo procurar mostrar que a família de Frei Galvão, pelo lado materno, possuí sólidas raízes fincadas em solo pindense.

De acordo com Afonso D'E. Taunay, no artigo "Os ascendentes de Frei Galvão", na Polyanthéa "Homenagem à memória do Servo de Deus F. Antônio de Sant'Anna Galvão", publicada em 1992, no 1º centenário de sua morte, aquele notável historiador, baseando-se na "Genealogia Paulistana", e Silva Leme, destaca que o nosso Santo pertence, pelo "lado materno", aos mais velhos troncos vicen-tinos, provindo dos primeiros povoa-dores quinhentistas".

Realmente, seguindo a ascendência do Santo, apresentada por Taunay, sua mãe, Izabel Leite de Barros era filha de Gaspar Côrrea Leite e Maria Pedroso. Esta última, sua avó, era filha de Pedro Vaz de Barros e Maria Leite de Mesquita. Por parte deste bisavô, Pedro Vaz de Barros, descendia, em linha direta, do povoador Antônio Rodrigues e de Antônia, índia, filha de Piqueroby, maioral da aldeia piratininga de Ururai; já pela linha de sua bisavó, Maria Leite de Mesquita, descendia do povoador João do Prado; mas, tanto pela linhagem de seu bisavô Pedro Vaz, como pela de sua bisavó, Maria Leite, descendia de Fernão Dias Paes, o célebre caçador de esmeraldas.

Analisando, agora, a linhagem do avô, Gaspar Corrêa Leite, verificamos que, também ele, descendia do povoador João do Prado. Isso é muito importante, pois constatamos que pelo lado materno, em nosso Santo não só era descendente em linha direta dos povoa-dores dos campos de Piratinin-ga, como também, e principalmente, ligado por parentesco a um dos mais antigos povoa-dores dos campos de Pindamo-nhangaba, qual seja João do Prado Martins.

Segundo o historiador Waldomiro Benedito de Abreu, na sua magistral obra, "Pinda-monhangaba - Tempo e Face", pág, 133 e seguintes, este povoador teve sua sesmaria na área onde, mais tarde, surgiria a vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba.

Concluí o historiador Tau-nay, afirmando que "a sacie-dade demonstram estas ligeiras notas quando se filiava Frei Galvão aos mais velhos e ilustres troncos vicentinos. Primo de Pedro Taques e Frei Gaspar da Madre de Deus devia também ser aparentado com todos ou quase todos os sertanistas ilustres de S. Paulo, tão notável o emaranhado das linhas genealógicas no restrito número de famílias de povoadores do solo antigo de S. Vicente."

Esse seu avô materno, Gaspar Corrêa Leite, era irmão do capitão José Corrêa Leite, familiar do Santo Ofício, que se casou em Parnaíba, em 1702,  com Isabel Cardoso Leite, sem deixar geração. O capitão José Corrêa Leite era afazendado em Pindamonhangaba, na "paragem chamada Tutequeira", rio abaixo, onde formou sua fazenda em terras que houvera por sesmaria e por compra de sítios, no início do século XVIII. Junto à sede desta fazenda fundou uma igreja, que ficou conhecida como de Nossa Senhora do Rosário Rio Abaixo.

 O devoto cap. José Corrêa Leite, desejando perpetuar a sua capela e culto à Senhora do Rosário, instituiu, não se sabe quando, um vínculo para ela, que acabou sendo conhecida, historicamente, como "Capela dos Corrêas".

Vínculo, conforme se lê no "Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa", é a "propriedade vinculada ou conjunto de bens vinculados que se não podiam alienar ou se dividir e que, geralmente, por morte do possuidor, passavam para o filho mais velho".

Falamos dessa fazenda do capitão José Corrêa Leite, tio-avô de Frei Galvão, porque morando o fazendeiro em Parnaíba, teria deixado o irmão Gaspar, avô do nosso santo, como administrador  daquela fazenda, onde residia com sua família e onde nasceu sua mãe, isabel, em 1717.

O pai de Frei Galvão era o português Antônio Galvão de França, nascido em 1706, em Faro, Algarves, que veio para o Brasil em busca de fortuna, estabelecendo-se em Guarat-inguetá, em 1730. Movimentando-se pela região, o culto reinol conheceu, em Pindamo-nhangaba, a Isabel Leite de Barros, com quem se casou, em 1733, na Capela dos Corrêas, na mesma fazenda onde o avô do nosso Santo residia com a família, em solo pindense.. É certo que Antônio Galvão de França residiu nessa fazenda por vários anos, agregado aos seus sogros, onde nasceram seus primeiros filhos. Detentor de boa instrução foi atuante na região, tendo ocupado o importante cargo de capitão-mor de Pindamonhangaba, por patente de 19/4/1747.

Finalmente, a questão que se coloca, face ao desaparecimento do livro de registro de batismo da Igreja da Matriz de Guaratinguetá, é se o querido Santo Frei Galvão não poderia, como os outros de seus irmãos, muito bem ter nascido na Fazenda dos Corrêas, em solo de Pindamonhangaba. Embora essa tese seja possível, mais a título de exercício de especulação, podemos concluir que, nada obstante,  o mais provável é que o nosso Santo Frei Galvão tenha mesmo nascido em Guaratinguetá, pois, em 1739,ano de seu nascimento, seu pai já estava radicado, com propriedade comprovada.

Mas, o mais importante é se constatar que nosso querido Santo Frei Galvão, pelo lado materno, teve suas raízes familiares profundamente finca-das na gloriosa história de Pinda-monhangaba

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